Sérgio de Sousa – Diário do Nordeste – Fortaleza / CE – 01/07/2010
Um dos maiores problemas enfrentados pelo investidor em energia dos ventos no Ceará é a falta de conexão entre os empreendimentos eólicos e o Sistema Interligado Nacional (SIN). Esta dificuldade é um dos fatores que contribuem para a elevação do investimento na construção e operação dos parques, impactando, no fim, no preço da energia. Para tentar resolver este problema, que já vem sendo reclamado pelo setor há alguns anos, a Abeeólica irá elaborar, até o fim do ano, um estudo técnico mostrando a necessidade de investimentos maiores no Nordeste na construção de linhas de transmissão.
"O estudo abrange a área entre Paraíba e Maranhão. O Ceará e o Rio Grande do Norte (os dois estados de maior potencial para a produção de energia pelos ventos) apresentam muitas dificuldades ao investidor que constrói suas usinas neste litoral", destaca o presidente da Abeeólica, Ricardo Simões.
"A construção de linhas seria muito bom para o Ceará, já que a questão da infraestrutura para o setor é um dos maiores problemas, o que acaba encarecendo o investimento", completa.
O estudo técnico será apresentado aos governos federal e estadual ainda neste ano, para que se possa encontrar uma solução para a problemática. Ele afirma que ainda não há nenhuma negociação direta com os governos para resolver a questão, e que o estudo deverá servir para trazer essa base.
"A modelagem hoje no País é com leilões, empresas disputam a construção e operação dessas linhas. Nós podemos fazer o estudo técnico e sugerir a utilização do modelo vigente, que é um modelo que tem se mostrado criterioso, ou a gente pode pensar numa outra solução, numa PPP (Parceria Público-Privada). Mas ainda não está definido. Na minha opinião, preliminar, acho o modelo vigente melhor, que ele seja incorporado ao planejamento da transmissão do Brasil", afirma Simões.
Segundo ele, o estudo irá considerar a localização dos parques, as subestações existentes das distribuidoras e das transmissoras. "E estamos olhando também a carga, entre a Paraíba e o Piauí existe um vazio de transmissão. É preciso uma solução estrutural, e não só pra resolver o problema da eólica", defende. Simões aponta que este investimento geraria uma maior competitividade ao Ceará, por exemplo. "O Estado tem um ótimo recurso, um ótimo combustível, o vento, mas hoje tem esses problemas na infraestrutura de conexão", avalia.
Licenciamento
Um outro problema encontrado no Estado, segundo os empreendedores do segmento, são as recorrentes ações judiciais lançadas para questionar o licenciamento das usinas eólicas em território cearense. Segundo Simões, "é preciso regras claras", para evitar tais problemas, que implicam em prejuízos financeiros dos investidores e atrasos nos empreendimentos.
Para tentar resolver esse impasse sempre recorrente entre a justiça e os empreendedores, o Centro Industrial do Ceará (CIC) vai promover, em setembro, uma mesa redonda para iniciar o diálogo entre as partes, em busca de um consenso.
"Estarão envolvidos o Ministério Público, o Governo Federal e os empresários. Vamos buscar regras claras, porque é, no mínimo, incoerente ser a energia eólica a ´menina dos olhos´ dos ambientalistas e ter problemas com o meio ambiente".
Aerogeradores - Estado ainda não possui fábrica
Para o presidente da Abeeólica, o Ceará tem condições de receber empresas interessadas em investir no País
Maior produtor de energia eólica do Brasil, o Ceará ainda não possui uma fábrica de aerogeradores em seu território, ao contrário de Pernambuco e São Paulo, que sequer têm expressividade na produção desse tipo de energia. Contudo, segundo acredita o presidente da Abeeólica, Ricardo Simões, esta realidade pode mudar em breve. Novas empresas já anunciaram interesse em investir nesse negócio no Brasil, e o Estado tem grandes probabilidades.
"A Suzlon, a Siemens e a Vestas já anunciaram que devem investir em uma fábrica de aerogeradores no Brasil. Ainda não definiram local, mas o Ceará tem possibilidades. A Suzlon, inclusive, já apresentou o interesse específico no Estado, assim como a alemã Führlander", ressalta. Além destas, a GE já acertou a construção de uma unidade do tipo em São Paulo e a Alston, uma na Bahia. Hoje, somente a Wobben Windpower produz os equipamentos, em fábrica localizada no estado de São Paulo e a Impsa, em Pernambuco. "O Brasil está atraindo o que tem de melhor em tecnologia eólica do mundo", afirma.
A Führlander já há bastante tempo possui um projeto de fábrica de aerogeradores no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, contando, inclusive, com área já terraplanada para tal fim. A empresa está em negociação com outra investidora para tirar do papel o empreendimento. A Wobben, por sua vez, já possui uma fábrica no Pecém. Contudo, a unidade não produz aerogeradores - que são equipamentos mais caros e que exigem maior tecnologia -, mas torres e pás eólicas. Entretanto, de acordo com o superintendente comercial da empresa, Eduardo Leonetti, a possibilidade de ter uma montadora de aerogeradores em sua planta cearense existe, dependendo da demanda por produção eólica no País.
Hoje, boa parte dos aerogeradores vem do exterior, e compõe uma parcela significativa do montante transacionado por aqui nas operações de importação. Segundo o presidente da Abeeólica, a instalação das empresas dará maior competitividade a energia eólica, na concorrência com outras fontes de energia, como a térmica. (SS)
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